domingo, 1 de abril de 2012

UM CERTO CLIQUE


O mar é infinito
mas já não há olhos para olhá-lo.
O sol de um calor profundo,
... e onde corpos pra desfrutá-lo.
O céu criando bichos tão divertidos,
mas e os sorrisos que já não se abrem?

A paisagem parece igual,
tudo está no mesmo lugar.
Mas nesse teatro
que não se repete,
os atores estavam ausentes.

Até mesmo a objetiva,
que ousou capturar o instante,
se traiu, tão desobjetiva...

Ai, o devir soberano,
que não aprisiona,
nem liberta,
mas roda em círculos,
e para, às vezes,
pra que no impulso,
possamos saltar.

Saltar do enquadramento
é tarefa que parece complicada,
mas talvez seja apenas
esquisita...

Quem sabe se não precisa,
de um pequeno rodopio,
e tonto o fotógrafo,
reenquadre o horizonte
que desconhecia.

Movimento, giro, pulo,
salto, fé, alegria.

NÃO PERECERÁS



“Não sou quadro para viver preso numa moldura e dependurado na parede. E que são as fronteiras de uma cidade, eu pergunto, senão os limites estreitos de uma moldura mais ou menos de luxo, na qual pretendem sufocar a imensidão de minha alma imortal, como diria um grande poeta ou qualquer seminarista, em tarde de primavera?”(Campos de Carvalho – A Lua Vem da Ásia)


Quando alguém desiste de si,
quando alguém se deixar esquecer
na sarjeta do tempo,
num canto qualquer dos dias,
é porque ronda e espreita
a morte do espírito.

É preciso o praticar de algumas horas por dia
o não envelhecer de si de mesmo,
reencantar o quarto escuro da alma,
reinventar um amor possível
por si...

antes que a natureza e seus cipós envolventes
se enredem e seduzam você
a se infiltrar no orgânico do mundo.
porque é preciso que se diga
ao som de trombetas
cirenes, buzinas:

_ O destino do Homem não é natural!!

Seres lançados no tempo,
escrevemos na história o destino moral,
fazendo do mundo
monstruoso teatro inatural,
sondamos o artifícial,
flertando com o imortal.
Somos o espírito
e encarnamos o Humano
que não perece
jamais...

Corpo Novo



liberem meu corpo
liberem meus fluxos
libera geral
... disse o poeta.

gemido do sim,
que se expande...
que se expande.....
que se expande.......

no dia seguinte
acertaram a garrafa na minha janela.
a janela fechada,
a de dentro e a de fora.

tem gente que só ou(viu) estilhaços.
eu não tive tempo,
o líquido jorrava
espesso
grosso
abundante
quente
deixando em curto
aqui dentro tudo

claro, escuro,
claro, escuro, claro, escuro
claro, escuro, claro, escuro, claro, escuro,
pii___________,
piiiiiii__________________,
piiiiiiiiiiiii_________________________,^____^__^^^^^, pi, pi, pi, pi,

^agora^
^eu, você, todo mundo, nós^
^desatando os nós^
^instante^instante^instante^
^luz^

água fluindo
eletri-cidade
curto-agora
curto-gozo
parto luz

chame a enfermeira!!!
não limpe a sujeira
não corte o cordão

eco do som
eric-son
fio de pele
tecido em mim
um corpo, enfim
filho, então.

NOVAS TECNOLOGIAS



máscara digital
mictório virtual
escoem seus fluxos,
líquidos, fluidos
para o meio da rua!

é isso mesmo,
foliões,
a ordem é essa
mijar na rua!

a convergência é sempre
na pólis, política
é capital!

cariocas, reuni-vos!
nosso carnava cultural
nosso bacanal digital
é de bloco ou de rede
mas é folião de rua.

domingo, 4 de dezembro de 2011

QUANDO O TEMPO ENVELHECE DEPRESSA

Ter a embriaguez da grande coragem
de sonhar tanto tempo sobre o dorso do tigre,
rédeas soltas ao vento,
galope nas trevas.

E saber despertar
frente ao hálito quente,
se ferido e raivoso,
num golpe de vista,
o animal te encara
e se detém, bem devagar.

Destrava as travas do tempo
que outrora trancaras com engenho.
E na roda do eterno retorno,
faz-se o tempo da infância da alma,
ainda mais uma e outra vez.

~Karen B.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

AMOR AO POETA DO POVO










O homem que eu amo, ainda,
tem olhos pra abraços ternos
de amigos na beira dos bares,
sorrisos pra praça pública
que é palco de populares,
palavras que não machucam
e brilham com a multidão.


O homem que eu amo, então,
venera as ruas e as gentes,
cultiva as suas histórias,
me abre a cortina do palco
aonde desfila a memória
do que ele aprendeu a chamar
de pátria, povo e nação.


O homem que eu amo, logo
me conta quem passa e quem chega,
me aponta onde os grandes decidem,
me acena onde os poetas brilham,
me explica que lá é assim...


O homem que eu amo, nem
bem sabe o poeta que é,
não os de caneta e tinta,
nem os de jornais e papéis.


Mas poeta, sim!
todo o tempo, pra mim.
Escrevendo imagens nos olhos meus,
tecendo rimas nos ouvidos meus,
me deixando grávida da poesia
e prenhe de vida o desejo meu.


E eu ouço esse homem que eu
ainda, logo e então,
amo, sem quando ou porquê,
mas sei e sinto o como.
Como nunca, digo pra ele.
Como sempre, sussurro pra mim.


A poesia da vida é assim:
onde o amor em passeata chegou
de estandarte empunhado na mão,
no meio do povo, com os pés no chão.


Poema inspirado no livro de poesias "O Povo escreve a História nas paredes", de Mário Lago, no ano do seu centenário.

domingo, 4 de setembro de 2011

Pérolas na rede


















Ando relendo, e também lendo pela primeira vez, Walter Benjamin pelos olhos de Hannah Arendt. No ensaio "Homens em tempos sombrios" Arendt nos fala desse Benjamim que não podemos encontrar em biografias ou relatos históricos, mas somente e unicamente, através dos olhos daqueles com quem conviveu e deixou entrever, nas entrelinhas das falas, nas entrefalas dos gestos, nos entregestos do silêncio, o seu "quem". Esse alguém que somos nós, mais e além do que os olhos podem ver, mas que como um Daimon, que aparece à nossa revelia enquanto falamos, somos e nos movemos entre nossos pares, por detrás de nós, denunciando nosso melhor, nosso pior ou aquilo que em nós é indizível. Tomando contato com esse Benjamin e seus textos sobre a criança colecionadora e as lembranças, me deparei com a forma absolutamente bela com que Arendt descreve o filósofo, como um pescador de pérolas.

Pérolas seriam as cristalizações da memória, lembranças guardadas em algum lugar dentro de nós e que o tempo, às vezes, nos trás com suas marés. Como presentes, verdadeiros tesouros que sempre estiveram lá, mas ocultos e bem guardados para nós. Pérolas, esses fragmentos do tempo, absolutamente cristalizados, que dormiram durante longas eras, mas que com a ação de convulsas tempestades, revolvidos por ondas, tornam a voltar à tona e, lançados em mansas vagas, se espraiam no nosso presente, como um autêntico presente do tempo.

Logo após esse contato comovido com "o quem" da pessoa amiga que foi Arendt e o pescador paciente que foi Benjamin, me encontro chegando ao consultório de minha analista. Me sento com os mesmos gestos que uso há mais de três anos e, pela primeira vez, inauguro com meu olhar essa caixa, uma caixa que pelo que parece sempre estiverá lá, porém escondida pelos véus do presente para mim e, subitamente, desveladas pelo brilho da lembrança. Uma caixa idêntica, em presença, em aparência e significado, a caixa que encontrára há poucos meses na esquecida casa de campo da família, há anos não visitada, herança última de meu pai. Redescubro essa caixinha_na verdade, minha filha_ ali num canto da minha juventude, brilhando por entre uma fresta de armário, atraindo suas delicadas mãozinhas para me entregarem essa pérola. Na caixa haviam coleções de momentos, palavras escriras com a caligrafia da descoberta, que eu e minhas amigas depositávamos com absoluta fé na sagrada fortaleza de uma caixa. Essa crença na sua vocação de perenidade, na força de atravessar o tempo e vencer o seu perecimento, como uma pequena concha enfrenta os vastos e profundos oceanos sombrios. Sim, somos seres que perecem, lançados em nossa temporalidade, seres para a morte, vivendo em tempos igualmente sombrios, mas que através de uma singela e frágil caixinha, resgatada de uma juventude já apagada e rasurada, devastada mesmo pelas tsunamis desse nosso tempo, podem receber um lindo presente da vida. Sim, sim, pois talvez somente através dessas mãos que gerei, herdeira do que em mim é mais vivo, somente através dela, e até por causa dela, recebo de presente a lembrança de que a amizade sempre fora a mais cara virtude. O fraterno sentimento de irmandade por essas mulheres e por essas meninas é o sentimento mais-que-querido, mais ancestral em mim. Sim, sim, agora me lembro da doçura com que admirava e me enternecia com as Irmãs nos colégios de freiras. Recordo, entre ternas lágrimas e límpidos sorrisos, da vocação anunciada ainda pequena criancinha, quando revelei que queria ser freira, mesmo sabendo que não me irmanaria para a leitura das sagradas escrituras.

Então ofereço esse singelo presente, nesse meu tempo em meio a tantas pescarias, algo que me chegou às mãos nessas redes do além-digital, do passado da menina de oito anos que fui, esta pequenina pérola para mim. Penso que não saberia dizer melhor do que a criança de 8 anos que fui, desse sentimento de profunda irmandade e fraternidade pelas amigas que passaram e que ainda estão passando e, a rigor, um sentimento de amizade por toda a humanidade, que me preenche e me implulsiona, no caminho da escrita e do pensamento, pelas estradas das Letras e da Filosofia, mas sobretudo com o norte desse sentimento_a amizade.

É isso, que a amizade seja sempre este presente, um presente, o tempo presente, mesmo que na forma de uma lembrança, um tesouro, uma esperança na humanidade e na eternidade do que em nós deve ser póstumo, o que não tem preço, pois nas palavras de Arendt, como a fama póstuma, não dialoga com o que é mercadoria.