sábado, 21 de abril de 2012
Filho Poiema
somente um chamamento
de imperiosa urgência
fazer da práxis e da léxis,
o tudo que fui, fiz e falei,
ao vão escuro do tempo,
ao breu das horas,
ao inelutável perecimento sob o firmamento,
uma poiésis,
partejamento
do filho dileto,
feito da carne
das minhas palavras,
que vindo a luz,
rasgando a alma,
em contrações e espasmos
muito próprios,
ritmo e métrica,
o rebento,
o Poiema.
Já não era assim sem tempo
de amparar-te sob um teto,
ao abrigo do tempo,
morada terrena,
a casa,
o livro
de poemas...
No destino da obra,
todo meu suor e entendimento.
Armada de cimento e prumo,
ergo as paredes contra o tempo,
e as intempéries
de minha própria natureza
que me espreitam
e tanto atormentam.
Mas sigo firme,
pois a fenda do absoluto
não se abre assim
a qualquer chamamento.
Estar consciente
deste momento,
a forma a me convocar
ao derradeiro enfrentamento,
o risco, o abismo,
em que somente o Poiema, completo,
satisfaz a voracidade
da travessia,
e do desvelamento.
Obremos, pois!
sexta-feira, 20 de abril de 2012
DECLARAÇÃO DE AMOR (in extremis)
sem que teu corpo se quede para trás
tudo sempre foi
como deveria ter sido
te amar sempre foi
(realizada a promessa cumprida)
simplesmente estar a seu lado
QUANDO UM SUPER-HOMEM CHORA
perto do fim
o gosto é o doce
a cor, azul infinito
o perfume, do leite pingando na boca do filho
nada se perturba ao redor
em meio a silenciosa despedida
tudo é invadido pela mais que espantosa
pax
o coração se expande
na generosidade de aceitar o todo
do mundo
a mulher bela
não é mais causa de dor
nem de envídia
apenas é
e a alma se enternece
no amor à beleza
à forma
à
tudo é como deveria ter sido
e deve voltar a girar
nas voltas do mesmo círculo
eterno-retorno
eternamente
tolo, o homem,
quando ainda imortal
e desconhece liberdades,
o afirmar-se na ponta do abismo
sim, te compreendo,
o absoluto enternecimento
no qual caíste em prantos
aos pés do animal, esbelto e belo,
que junto a ti sucumbia
perto do fim
o amor por tudo aquilo que é vivo
segunda-feira, 9 de abril de 2012
domingo, 1 de abril de 2012
NOITE DESENLUARADA

Caminhei por horas sozinha
à beira do mar,
mas sem ver o céu,
... sem ouvir o mar.
Seguia minhas pegadas
e perdia tanto tempo,
enfestada de dúvidas,
povoada de lamentos.
Acompanhada de más companhias,
tantos e tantos pensamentos.
Não sei bem o que foi, então,
se uma rajada de vento,
e perdi o prumo talvez,
ou , quem sabe, a escuridão da noite,
que se avolumou,
e me clareou por dentro.
Mas o fato é que calei-me
e por muito tempo
fomos só tu e eu.
Eu, arrepio e gozo,
finalmente presença.
E tu, definitiva,
a falta que constitui
o espaço aberto em meu corpo,
lugar justo ao abrigo
da minha alma, em tormento.
Tu, querida amiga
forma bela, esculpida
no seio da linguagem que fala
e trouxemos, juntas, à luz.
Estrela longínqua, para sempre
presença luminosa de uma ausência.
Mãe também e amiga,
que me pariu na carne
das tuas palavras,
que me gerou da carne
das minhas palavras.
Este momento é para ti.
Brindemos nós aqui e ainda
às lindas noites desenluaradas,
em que juntas, contaremos histórias
e vencerermos o tempo
e algumas longas madrugadas.
A GRANDE LUTA

O amor sobrevive quando morre...
e renasce,
mais uma e outra vez,
... diverso, desconhecido, surpeendente,
como minha pele que descama
e amanhã será outra,
deixando antigas roupas pelo caminho.
O amor acaba quando definha...
e desaparece,
sem que ninguém perceba
que já não estava ali.
Amor-mendigo,
amor-velho,
amor-doente.
O amor é luta...
não é para amadores,
mas sim guerreiros,
que arriscam tudo,
que não vacilam.
Os fortes,
que avaçam na frente da batalha,
sangrando a pior ferida.
Os fortes, os nobres, os verazes,
os verdadeiros .
Guerreiros de sangue frio
e coração quente.
Quem quiser que se prepare,
armado de coragem
e sô.
Despido de tudo que sabe,
ouviu, viu, aprendeu.
Nu,
o vento a contrapelo,
e o enorme arrepio,
das noites que precedem e metem medo,
antes de mais um,
e outro dia quente,
ao calor do sol.
O amor é guerra,
tem batalhas,
tem início, meio e fim,
e só termina quando temina a luta.
O amor é glória,
não é paz.
MUDANÇA DE VENTOS

A dó que tenho do barco a deriva e solitário
é grande o bastante pra achar que é forte e belo,
mas nem tanto pra que eu vá com as pernas que são minhas, tão longe que estou, ao encontro de seu destino.
...
O olhar admirado por sua imponência e porte,
é enorme o tanto pra que eu alerdeie seus feitos,
mas não tanto pra que eu embarque, abandone a minha terra agora firma e seja sua capitã ou guia.
A brisa que corre solta e suave em sua proa,
é doce o bastante pra que eu veja que navega macio,
mas não pra mim que dei pra marejar em navios.
O barco é grande e todos o cobiçam,
mucamas, garçons, muitas festas e amigos.
Mas como explicar o súbito desinteresse
pelas vagas bravias.
Como até entender que o turismo
perdeu sua fantasia.
Tardo em admitir,
mas ando gostando,
do pé na areia,
a marola suave,
sem grandes viagens,
sem tanta companhia,
apenas um mergulho
com gosto de sal
um sorriso solto
e uma fácil alegria.
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