quinta-feira, 3 de abril de 2008

Memórias de uma pequena leitora


Voo...ooo...vô!!! Do parapeito da janela, sentada no abraço da avó, exclamou soluçando, qual um vira-lata abanando a cauda em sorrisos, sua palavra primeira... vovô. E foi com tamanho encantamento que pisou no reino das palavras, que sempre todo mundo recontava a história para ela. Pedia depois disso sempre ao avô que lhe desse a mão, ele que seria seu mestre e mentor. E também que lhe guiasse nesta aventura, que lhe lançasse para o alto com suas mãos de ventania e se pusessem os dois a galopar em seu cavalo branco (porque pra ela ele já era um príncipe, com aquela farda branca e as medalhas que os olhos da avó lhe salpicavam no peito, tal qual estrelas muito brilhantes)... cavalo branco, nuvens brancas, folha branca....e foi numa tarde dessas, igualmente bem branca, da infância que vem mesmo na lembrança com esta mesma cor, que irrompiam também daquele seu amor primeiro, a primeira poética melodia. Era o avô que ali estava, não sei em que tempo, não sei em que dia, mas era mesmo um dia como todos os outros e ....de repente, com uma voz galante e o olhar pleno da beleza dos que poetam, declamava para ela os versos primeiros, com os mineiros olhos comovidos como o diabo, de Castro Alves e de Gonçalves Dias. É certo também que ela não se lembra de um só verso, nem se quer de uma só história, pois de certo também não as compreendia, mas a menina aprendia naquele mesmo dia que com palavras também se fazia melodia. Seu nome era Maria.
Maria tinha também uma amiga distante. Na cidade de São Paulo, morava a pobre Tininha, morava com seus pais, mas estava sempre sozinha. Somente se reencontravam nas férias, quando ela e os pais voltavam para o Rio. Pois bem, Tininha era muito, muito triste mesmo, sozinha na estranha cidade sem vila, sem sol e sem avós. Ela lhe contava que tinha apenas uns poucos amiguinhos, mas eles viviam trancados dentro de um livro e Tininha só os reencontrava, quando sua mãe tinha um tempinho para ler ....ah! ela havia lhe contado que sua mãe estava lhe ensinando a ler, neste livro com cores lindas, e personagens de nomes que soavam-lhe estranhamente gostosos de pronunciar, como TA-LI-TA, era assim mesmo, tudo dividinho, em sílabas, que ela disse que aprendia. Sua mãe havia sido professorinha, acho que ainda sabia ser, mas ia cada vez pra mais looooooonge de Tininhaaaaaaaaaaa...
Maria queria muito ensinar Tininha as coisas lindas que aprendia com os avós, para ver se ela voltava menos triste pra São Paulo. Então, pedia que seu avô montasse no seu violão e ficavam abraçadinhas as duas, quietinhas ali, com pose de para-sempre, pra ver se aprendiam as histórias que contavam as melodias. As mãos de ventania do avô também galopavam velozes no cavalo baio de seu violão, nas modinhas e musicas juninas. E as duas então já conheciam tanto jeito da palavra ser, da palavra viver, da palavra dançar... que Tininha partia cada período de férias mais confiante nas palavras amigas. Aprendeu que podia escrever e também criar seus próprios amigos. Talvez porque estivesse sempre só, resolveu escrever para os parentes que haviam partido pro lado de lá, pois afinal eles haveriam de estar sós também. Escrevia para a cadelinha Mimosa, para o pai de seu pai, o avô, coitadinho, que tinha morrido pouco antes dela nascer, e também para um priminho de cinco anos, que partiu no ano em que ela nascia. Sentia uma estranha proximidade com eles, como se as folhas brancas fossem portais para o mundo-dos-parentes-que-certamente-seriam-seus-amigos-se-fossem-vivos. É por isso, talvez, que não tinha medo de fantasmas ou vampiros, e adorava que lhe contassem histórias fantásticas. Sua mãe era especialista nisso. Daqueles tempos se recorda com requintes de pavor os “contos de fadas” que ela lhe contava na hora de dormir. Onde já se viu Tininha, sua mãe tem cada uma. Meus avós só me contam histórias lindas. Mas o que Maria não sabia é que a mãe de Tininha tinha uma estranha mania de contar histórias de madrastas, talvez pra que Tininha tivesse medo de perdê-la, quem sabe, e fosse uma menina muito boazinha. Pois Tininha cresceu medrosa, lembrando de Rapunzel com suas tranças imensas, presa no alto da torre e da menina enterrada viva, que implorava “não me corte meus cabelos, pelo figo da figueira, a madrasta me enterrou, pelos figos da figueira”. Então Tininha aceitou seu destino. Cultivava suas longas madeixas, aguardando por seu triste destino.
Mas Tininha não tardou e encontrou outra grande amiga na cidade sombria. Seu nome, Catarina. Catarina também era uma menina solitária, mas ao contrário de Tininha, que se impressionava ou temia o universo familiar, Catarina era encantada pelo mundo. A escola era seu país. Mesmo quietinha, ouvia tudo como quem come palavras, sorvendo tudo que aprendia. Era conhecida na escola como a menina-da-redação, pois escrevera aos 7 anos um estranho conto sobre seres fantásticos, que habitavam outros mundos, que possuíam outros sentidos, conheciam outras cores... ah! Isso Catarina aprendeu com o Ziraldo, quando leu o livro Flicts... pela primeira vez alguém lhe falava sobre os outros mundos sobre os quais Catarina já escrevia. Aquelas páginas das quais alegres cores saltitavam, e desenhos mais vivos ainda tagarelavam, tinham uma textura estranha, tão lisas, barulhentas, tão escorregadias, que quase Catarina não dava conta de conter, as páginas pareciam que tinham vida própria. Talvez fosse mesmo a alma de Flicts, difícil de definir, de segurar, de explicar... mas estranha e extraordinariamente fascinante, pensava ela. Depois do Ziraldo, Catarina nunca mais foi a mesma e continuou lendo livros sobre outros planetas, outras galáxias, outros seres, até mesmo os minúsculos e invisíveis. Daí que quando Catarina fez 13 anos descobriu na estante do seu pai tudo que o Ziraldo falava. Desta vez quem contou foi o Isaac Assimov, com livros de ficção científica e o código genético, um universo invisível pra longe do seu planeta e também pra dentro das suas células, afinal o pra-dentro era também infinito! Tininha ficou sabendo, muitos anos mais tarde, que pra poder se encontrar com o Flicts que morava dentro do universo do DNA, Catarina entrou até pra faculdade de Medicina com 16 anos, veja só se isso é permitido? Mas infelizmente depois de três anos se desencantou, não havia nenhuma pista de Flicts e também ninguém lá tinha vontade de lhe dar as respostas que tanto queria. Tininha nunca mais ouviu falar da amiga.
Mas voltando a infância de Tininha, pois bem, um dia ela voltou para o Rio, para Maria, a casa da vila, os avós de Maria, as músicas, as cantigas, os versos, e todo aquele mundo sem torre, sem criança-enterrada-viva, sem solidão, sem maus encantamentos, que até se esqueceu dos cabelos que lhe pesavam a alma, dos pesadelos e dos outros mundos de Catarina, que também lhe pareciam muito tristes. Tininha passou a visitar a biblioteca da mãe de Maria. Ela devia ser uma mulher cheia de beleza, pois todos os seus livros eram de poesia, e a poesia é a beleza mais pura, não é? Conheceu o Casemiro de Abreu, o Álvares de Azevedo e resolveu achar que sua tristeza vinha de um amor que ela não conhecia. Não adiantava, mas parecia que Tininha tinha mesmo vocação para a tristeza, e por mais que Maria implicasse com ela, chamando-a de mal-do-século, e mostrando que nas músicas brasileiras, haviam lindas histórias de felicidade e alegria... pois não adiantava, Tininha resolveu mesmo escrever como os seus poetas ultra-românticos, tardando dia e noite nas suas tristes poesias de amor não correspondido. As duas se separaram e ficaram muito tempo sem se ver. Foi só bem mais tarde, por meio de outra amiga, que reataram a amizade antiga.
Quando tinha 14 anos, Tininha conheceu uma amiga que iria mudar sua vida para sempre. Andréa era seu nome. É que Andréa se aboletou na sua vida. Sabe aquelas amizades que não deixam nenhum espacinho pra tristeza? Pois é. Andréa estava lá de manhã, estava lá de tarde, de noite, todo dia. Mas o fato é que Andréa também não veio só. Ela trouxe na bagagem uma mochila cheia de livros, que pareciam até ter se esparramado de uma só vez no quarto de Tininha. Prestem atenção: Andréa lhe apresentou CLARIIIIIICE!!!

...

É pra ficar em silêncio mesmo. Porque Clarice Lispector foi na vida de Tininha um grande susto. Como alguém podia conhecer o fluxo de seus pensamentos, seus silêncios, seus espantos com as palavras, sua maneira circular de prensar, de sentir, de escrever? Como alguém podia escrever como quem está no exato instante do pensamento? Pois assim eram os encontros de Tininha com Clarice, intensos, apaixonados, amorosos, libidinosos, reais, dialógicos, com pergunta e resposta e silêncio e espanto e tudo isso juntas. Clarice soltou as comportas do pensamento de Tininha. Tininha tinha seu próprio “Livro dos Prazeres”, ficava dias imersa em “Água Viva”, voltava e tornava a voltar e recomeçar os livros pelo fim e voltar ao meio de novo até ter se tornado a mesma substância líquida e viva que era Clarice.
Então, foi mesmo depois de Clarice, e de tooooodos os seus livros, que uma amiga apresentava outra e mais outra e ainda outra e essa turma toda acabou se reencontrando ao longo da vida, pois uma conhecia a outra, que a fazia lembrar de outra, e daí se falavam com quem não viam a muito tempo... e até hoje, todas são grandes amigas. Às vezes saem todas juntas, outras relembram de histórias antigas quando estão fazendo novas amizades e acho que essa mania de se reencontrar nas leituras que passam pelas suas vidas é o que elas têm de mais gostoso e o que faz mais sentido pra essa mulheres, meninas.

FIM
... ou melhor,
O COMEÇO.

*conto infanto-juvenil extraído do livro Lendo com vocês, de Karen Cordeiro.

Em Liberdade


O ensaísta e ficcionista Silviano Santiago, em recente mesa de debates na Festa Literária Internacional de Paraty (2007), destaca o caráter testemunhal do romance Em Liberdade, um diário ficcional onde narra as memórias inventadas do escritor Graciliano Ramos. Silviano fala da sua necessidade, enquanto leitor e intelectual, de dar forma ao caos de tantas leituras. Para isso, o recuo estratégico de Em Liberdade ao passado funciona como um recurso eficaz para ampliar a repercussão do seu testemunho da história recente do país. A ficção biográfica é usada como espaço privilegiado para romper talvez com a maior prisão do escritor, seja ele repórter, ensaísta, ficcionista ou biógrafo, que é o cárcere dos gêneros, já que, segundo conclui Silviano no debate, o mais importante para o escritor seria a liberdade, trazendo a luz nesta fala uma das significações do título do romance, Em liberdade quanto à forma, quanto aos gêneros, diário, ensaio, ficção_ documento, história e arte.
Wander Melo Miranda em Corpos Escritos, ressalta a importância da apreensão dos mecanismos da repressão sócio-política assim como a lucidez no trato com a linguagem que denunciam exatamente estes mecanismos. “Arte, vida e história conjugadas revelam então a outra cena encoberta pela retórica oficial e pelos mecanismos de dominação que mantém o escritor presos ao cárcere do eu”, que dificultam o encontro e diálogo solidário e necessário entre os intelectuais, negando a eles sua participação de agentes nas transformações culturais e políticas do seu tempo.
A autobiografia ficcional assume assim o caráter de memórias agora não mais da experiência da prisão, como nas Memórias do Cárcere, mas sim da liberdade e seus cerceamentos mais sutis, como analisa Flora SüsseKind em Literatura e Vida Literária. Eis o projeto do livro de Silviano: cotrariar a expectativa de um leitor sequioso pela tortura convertida em espetáculo, como em tantas biografias que sucederam os períodos de ditadura militar, nas décadas de 70 e 80. O autor rompe com o pacto autobiográfico, sugerindo que o memorialismo e a autobiografia não são o único refúgio do narrador, mas num inesperado ponto de interseção entre ensaio e ficção. Como conclui Wander Miranda é “esse investimento desalienante da leitura que delega ao leitor a função subversora de investigador da história e em história” revelando que o desejo de historicização da escrita transpõe os limites da produção e penetram na área da recepção.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

O presente, a cachorra e o menino pit bull


Aqui da varanda do meu apartamento, pela manhã, eu já vi muito menino pit bull passeando com sua cadela pelas areias da praia, da praia da Barra da Tijuca. Mas houve também noites em que eu vi meninos pit bull batendo em outras cachorras, que é como eles chamam as putas, aquelas que fazem ponto nos pontos de ônibus do outro lado da praia, na outra calçada da praia da Barra da Tijuca.
Aqui da varanda da minha insônia eu penso: será que quando ele passeia recolhe a merda que a cadela dele deixa na areia? Será?! Porque se ele pegasse mais na bosta dela, eu sei que ele era outro, tinha mais chance de virar um homem, respeitando o fato de que o mundo vem com bosta e tudo. Mas não. Ele acha que a puta que faz ponto ali suja mais a Barra dele, que ele quer tão asséptica, que a bosta da sua cadela. Por isso, ele anda em bandos, nos coros, aos uivos, gritando pra jogarem pedra nela, pra jogarem bosta nela, na cachorra que é feita pra apanhar e que é boa de cuspir, na maldita puta que dá pra qualquer um, menos pra ele. Maldita, ele diz!
Ontem minha cadela de quinze anos morreu, aqui, nessa mesma varanda. Passei uma semana inteira limpando a bosta líquida que escorria-lhe pelas patas trêmulas. Banhei-lhe o rabo fétido, com água tépida, por mais de sete dias, pra lhe dar algum conforto. Aquele nojo que ia me limpando por dentro. Ela me olhava tão humana. Deixava que eu participasse de sua morte, que foi ali mesmo, na varanda com cheiro de mar. Não precisava, mas deixava mesmo assim. Fazia isso por mim. E eu ali dissolvida, imersa, naquela profusão de fluidos tão mornos, misturados com sangue e fezes, sem saber, eu me paria. A bacia de água morna, com sangue e fezes, a água turva. A bolsa d´água se rompendo e jorrando, escorrendo pelas minhas pernas dela, e a criança nascendo e chorando, ou a cadela morrendo e gritando, com ou sem placenta, com sangue e fezes. Puta-que-o-pariu!
Meu filho viu tudo. Ele já tem dez anos e achei que precisava ver de onde veio.
Na semana seguinte estávamos parados em um sinal e ele viu o carro da frente abrir a janela. Retiravam sacolas com presentes de Natal e davam pra aquela mendiga suja. Aquela que haviam lhe entredito que enfeiava e maculava tanto a paisagem dos cruzamentos das ruas, das ruas da Barra da Tijuca. Mãe, olha só mãe, acho que eles tão dando presentes! Mãe, tô todo emocionado, mãe! Vamos fazer um dia isso mãe? Eu falei pra ele que talvez, que podíamos ver na igreja com o padre Celso se podia ter criança no dia do sopão dos mendigos, aquele que eu nunca fui. Cheguei em casa e pensei que ainda bem que ele não tinha me dado ouvidos quando expliquei que não era bom dar dinheiro em sinal, porque isso era culpa burguesa, que só estimula a marginalidade e a violência, que não adianta nada e blá, blá, blá. Pensei então que talvez alguma coisa ele tenha aprendido vendo a mãe metendo a mão na bosta da cachorra velha que morria. Respirei aliviada, imaginando ele mais velho, transando, quem sabe, com uma daquelas putas, que humanizavam tanto as calçadas daquela que seria a sua Barra da Tijuca.
O meu presente de Natal foi sonhar que meu filho um dia vai contar sobre a noite que passou com uma cachorra pro seu amigo menino pit bull. Aquela noite em que estava só, ou deprimido, desesperado, ou corneado, fodido ou desempregado, mas que foi muito bem amado por uma bendita puta chamada Geni.

Conto inspirado na canção “Geni e o Zepelim”, da Ópera do Malandro de Chico Buarque de Hollanda

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

MISSA DO GALO



“Costumes velhos. Às dez horas da noite
toda gente estava nos quartos;
às dez e meia a casa dormia.”


Machado de Assis


É mais uma noite de sábado. Me enfado. Tudo deve transcorrer como de costume, não sei. Porém ouvi dizer que lá fora muitos estarão juntos na igreja, logo depois da meia noite, na tal missa do galo. Ah! Havia me esquecido, é Natal. Mas é que hoje aqui tudo faz parecer mais um sábado como outro qualquer. Vejo no relógio da sala que já são oito horas. Um trepidar me assusta, ferindo o silêncio da noite. Me estremeço toda. É claro, o escrivão já está na sua hora. Vestiu-se no quarto exalando cheiros e vontades, beijou a esposa na testa e partiu marchando pelo assoalho, pisando seus passos resolutos e ritmados pelos corredores. Esse som que machuca a monótona harmonia da noite. Na sala da frente está o jovem primo. Despediu-se dele hoje mais apressado que de costume, talvez. O silêncio segue seus passos até a rua, ocupando novamente seu espaço. E eu também de novo me enfado. Sinto o jovem pesando sobre a poltrona, ele e seus Três Mosqueteiros de Dumas. A sogra do escrivão veio desejar boa noite e lhe pergunta o que fará com tanto tempo à espera da missa do galo. Procuro o relógio, já são dez horas! O jovem lê.
Agora é a mulher de roupão que vem interromper a leitura! O que será que ela quer? Então o jovem e a mulher ensaiam um estranho bailado de coreografias verdadeiramente insuspeitas para mim. Rascunham uma história que não estava prevista para hoje. Movimentos de avanços e recuos pela sala, pelos móveis, pela noite. Sinto uma zonzeira, me atordôo. A dança que não se completa, as línguas que não se falam. As palavras escritas em letras mínimas, o tamanho possível para a caligrafia da mulher... a miopia do jovem... a história que não pôde ser escrita, cheia de rasuras, papel amassado, jogado num canto do tempo. Será que um dia alguém escreverá? Talvez, em intermináveis escritas e rasuras e reescritas, no sempre das reticências... não sei. Durmo um longa noite sem palavras. Acordo às vezes com uma irremediável insônia afásica.
Mas há noites em que eu gostaria de demolir as paredes que ergueram-se dentro de mim a minha revelia. Sei que são elas que me sustentam, me estruturam, me organizam, me fazem ser o que sou. Mas por vezes me sinto tão dividida, esquadrinhada, esquartejada, sei lá. Tão inutilmente dividida. Mas e se um dia, mesmo que por um breve instante, desconstruisse minhas entranhas e levantasse véus levemente invisíveis, ou talvez divisórias falsamente espelhadas? Talvez o milagre, o encontro possível, por um breve momento, aconteceria. Então a revelação, epifania de alegria, consumiria o espaço, as almas em alforria.
A velha viraria menina, correndo serelepe para o quartinho das escravas. Se amontoava no chão frio junto a seus corpos quentes e escuros, com elas rindo e cantarolando, agora não mais à socapa, até que a grande escuridão enfim se achegasse. A mulher se assustaria admirada, extática como o próprio Jesus Cristo na cruz. É seu reflexo por trás do jovem o que ela agora enfim pode ver. Encantada e surpresa com tamanha beleza, seu corpo e rosto a emoldurarem-se na parede, se avizinhando à Cleópatra e às outras tantas mulheres, todas em festa, escandalosamente santas. E o jovem? Ah! O jovem... desceria do cavalo magro de D’Artagnan e, num vendaval de certezas e coragem, tomaria a mulher arrebatada nos braços, divina comunhão, tanta verdade. Também o jovem vizinho e sua sombra que pairavam pesadas, não mais espreitavam portas, ameaçando nossas vontades. Tramava agora um ardil e pulava a janela da mulher, em toda noite de Teatro. E, por fim, o escrivão, era tomado de uma inveja tão santa frente aquela visão de felicidade. Queria ele para si o que via, o paraíso muito antes da mordida, o encontro muito além do pecado. Tomava seu cavalo também, corria a galope para o Teatro e de lá nunca mais voltava. Jogava fora todas as chaves, deixava a porta da rua destrancada, aberta para todo o sempre... Salve! Amém. E livres, não mais acorrentadas, as escravas corriam pela noite da cidade e da corte adentro. Iriam ver, aprender e entender, em que dava afinal a tal Missa do Galo.
Mas para isso tudo eu precisava da mão de Deus, para me animar e me dotar de vontade, pois sou apenas essa casa, assobradada, abandonada e assombrada, pelas lembranças de tudo que vi, aqui onde fico, na Rua do Senado.

POR UM CREDO LITERÁRIO POSSÍVEL


Creio em um narrador não onisciente, nem tão poderoso assim. Padeço de uma fé comovente nas sagradas escrituras. Por isso rezo toda noite escura da alma pelo encontro com esse narrador que crê na literatura como desvelamento de si mesmo. Um narrador que se perturbe com sua própria criação e acolha a surpresa na sua escritura, dialogue com ela e vivencie na carne de suas palavras o mistério do encontro com sua sombra desconhecida. Que a palavra urdida nesse doloroso ofício-sacrifício seja salvadora, transformadora... revelação. E que ao final de sua criação seu criador se perceba cria de sua própria criatura.

Creio nessa narração que se constrói no momento exato da escrita, pré-lógica, corajosa, contingente. Não que ela prescinda da construção ou se entregue a um automatismo romântico mediúnico, mas que se confronte com sua própria face. Que não seja pecado negar a si mesma mais que três vezes. E que ela deságüe em oceanos desconhecidos, praias desertas, recantos paradisíacos ou, quem sabe, continentes inexplorados. Sim, que a literatura seja a herdeira dessa nossa vocação lusa de navegadores a dedicar suas histórias pessoais a descoberta de terras além mar. Que essa viagem se dobre para dentro e para fora, simultaneamente, ao encontro de símbolos, tradições, culturas, misturas, identidades híbridas e em processo, tudo isso que temos em nós mesmos.

Creio na comunhão com esse narrador, que se depara consigo mesmo, que é leitor de si, durante o processo da escrita. Esse, que não teme contradições, incoerências e desconstruções ao longo de sua narrativa e perpassando seu discurso. Que grata surpresa seria forjar do barro uma personagem e, mais adiante, poder acolher algum ensinamento seu. E o encontro com sua multiplicidade de faces, diante da morte desse seu velho conhecido sujeito, possa alimentar sua boca que fala a língua da alteridade. Que esta fala cresça então mais forte e robusta, para que o outro possa ser sentido como mesmo, carne de sua própria carne.

Creio na escritura como salvação, ritualística e purgadora de todos os demônios do eu.

LITERATURA DE AUTO-AJUDA E O BOOM BIOGRÁFICO


Livros. Falaremos aqui de dois fenômenos editoriais de vendas nas últimas décadas: a literatura de auto-ajuda e o boom biográfico. Entretanto, queremos questionar a premissa de que estamos realmente tratando de livros. Não na qualidade de objetos empíricos e dotados de concretude física, que certamente o são, mas da espécie de matéria espiritual que representam. Passaremos, então, a uma reflexão e uma investigação sobre as formas que se dão estes dois fenômenos sociológicos de consumo no âmbito da cultura de massa.

Fazendo uma apropriação de alguns conceitos da teoria sociológica dos sistemas de Niklas Luhmann que encontram ressonância significativa nos estudos de literatura, como propõe Heidrun Olinto, tentaremos pensar estes dois fenômenos fazendo uma articulação entre os sistemas simbólicos suscitados por estas literaturas e os demais atores sociais acionados neste sistema social em que a literatura circula.

A proposta inicial consiste em inventariar alguns títulos de livros mais recentes e outros conceitos-chaves com que estas literaturas trabalham, numa tentativa de relacionar os campos semânticos em que estes circulam com outros atores sociais empíricos por onde transitam ou são consumidas estas mercadorias, livros a priori. É visível que estamos trabalhando com a categoria do leitor-receptor-consumidor transformado em co-produtor de sentido de uma nova unidade fundante: o texto-contexto.

Uma primeira percepção é a da recorrência de títulos que ora remetem ao universo da ciência, da farmacologia ora ao da magia, do curandeirismo. Temos “Gotas de sabedoria”, “Pílulas de Felicidade”, “Diário de um Mago”, “O Alquimista”. Na estilística há uma recorrência a regras, métodos, leis, que sugerem outras aproximações, desta vez com fórmulas medicinais, receitas de poções, bulas de remédios e leis da física ou da química. Já no segmento das biografias, podemos refletir sobre o caráter evangelizante da literatura. Passando pelas histórias de vidas célebres, há também a história da vida da prostituta Bruna Surfistinha e as inúmeras histórias que contam a vida de santos ou homens “santos” (lamas, gurus, mestres espirituais, etc.). Alguns destes são de alguma forma incensados pela mídia a uma categoria sacralizada. O discurso é muitas vezes o catequético, como sugerem os títulos “Peça e Será Atendido”, “Você e Mais Capaz do Que Pensa” e “O poder do agora”, só para citar a última lista dos dez mais vendidos pelo jornal Folha de São Paulo. Na forma com que uma voz superior se dirige ao leitor, ouvimos o Deus-mercado falando com seu discípulo-consumidor. Em vários destes discursos a mesma doutrina de que o indivíduo pode resolver tudo por si mesmo, com diversas roupagens: “pensamento positivo”, “lei da atração”, “lenda pessoal”. A diversificação e a distinção enfática ds temáticas, servem apenas para organizar e classificar os consumidores, padronizando-os, segundo Adorno em seu ainda atualíssimo ensaio “Indústria Cultural”. Produtos de massa dirigidos a nichos de mercado que aparentemente conferem uma percepção de identidade diferenciada a cada segmento. Há os pseudo-filosóficos, os pseudo-místicos, os pseudo-esportistas, sendo que efetivamente a grande parte destes leitores-consumidores não possuem contato algum com nenhuma destas tradições, quer seja através de seus textos, comunidades ou práticas, mas simplesmente através da facilitação da mídia, que dilui e homogeiniza esses discursos. Efeito curioso é a produção de uma estranha sensação de pertencimento a uma coletividade virtual, esta comunidade de indivíduos unidos virtualmente pela leitura de best sellers, anônimos, se irmanando por esta estranha construção de uma identidade negativa _ leitores-de-auto-ajuda-e-de-biografias-de-celebridades anônimos.

Os templos de consumo vão das tradicionais livrarias, mas sobretudo e, curiosamente, em prateleiras-santuários dispostas em forma de altar, às mega-drogarias, mega-supermercados e lojas de conveniência AM/PM. Estes são os locais de distribuição desta espécie de livros. Talvez possamos refletir melhor sobre em que matéria espiritual se transformaram estes objetos empíricos, se pensarmos largamente na forma com que são consumidos. Curioso pensar que hoje, dificilmente podemos encontrar templos ou espaços sagrados abertos na madrugada, ao contrário do que observávamos em um passado não tão distante, quando o acesso ao curandeiro, ao feiticeiro, ao sacerdote, não conhecia horário comercial. Na madrugada contemporânea, quando os fantasmas dos loucos e dos insones tornam a assombrar, podemos ver este homem caminhando solitário, aprisionado em sua doutrina hiperindividualista. Seu slogan é o make yourself e seu destino, os self-services. Na próxima loja de conveniência ou mega-farmácia AM/PM, o homem pensa encontrar o bálsamo para sua alma.

PERIGOSO MORIBUNDO



ao meu amigo Jorge Albuquerque

Meu amigo, meu amigo, meu amigo, meu amigo...
Já não sei se somos tu e eu loucos
ou se prisioneiros em um campo nazista.
Ou serei eu então criminosa e bandida,
pestilenta, leprosa, perigosa... banida.

Meu crime é, isso sim, essa vil sanidade
de não irromper qual um desvairado,
drogado, pirado, contraventor, infrator,
me insurgir contra a lei que regula a tua morte
naquele lugar que sequer tem um nome
e ao qual eles chamam
economica-mente:
C-T-I.

A sigla repele o afago em teu rosto.
O gesto algemado, assassino perigoso.
A sigla esfria o calor em minhas mãos.
O corpo gelado na câmara de gás.
A sigla proíbe a presença humana.
O corretivo do louco, a camisa de força.
A sigla aprisiona o horário de visita.
O ir e vir do criminoso, impedido.


Queria saber de um disfarce, um ardil,
para ir até ti e quieta,
ali.
Iria buscar a ponta do fio
que mantém você indefeso e preso
às máquinas da tortura infernal,
máquinas da solidão radical.
Que sina impingida aos homens
homens chamados moribundos,
palavra, tabu, feito um crime.
Seguiria a percorrer este fio a cada palmo
em argumentações necessariamente racionalíssimas.
E com os doutores da vida e da morte
desembaraçar-te-ia das teias que te enredam
nos discursos poderosos da ciência e da saúde
que ordenam e coordenam
a tua morte e também
a tua vida.