domingo, 4 de dezembro de 2011

QUANDO O TEMPO ENVELHECE DEPRESSA

Ter a embriaguez da grande coragem
de sonhar tanto tempo sobre o dorso do tigre,
rédeas soltas ao vento,
galope nas trevas.

E saber despertar
frente ao hálito quente,
se ferido e raivoso,
num golpe de vista,
o animal te encara
e se detém, bem devagar.

Destrava as travas do tempo
que outrora trancaras com engenho.
E na roda do eterno retorno,
faz-se o tempo da infância da alma,
ainda mais uma e outra vez.

~Karen B.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

AMOR AO POETA DO POVO










O homem que eu amo, ainda,
tem olhos pra abraços ternos
de amigos na beira dos bares,
sorrisos pra praça pública
que é palco de populares,
palavras que não machucam
e brilham com a multidão.


O homem que eu amo, então,
venera as ruas e as gentes,
cultiva as suas histórias,
me abre a cortina do palco
aonde desfila a memória
do que ele aprendeu a chamar
de pátria, povo e nação.


O homem que eu amo, logo
me conta quem passa e quem chega,
me aponta onde os grandes decidem,
me acena onde os poetas brilham,
me explica que lá é assim...


O homem que eu amo, nem
bem sabe o poeta que é,
não os de caneta e tinta,
nem os de jornais e papéis.


Mas poeta, sim!
todo o tempo, pra mim.
Escrevendo imagens nos olhos meus,
tecendo rimas nos ouvidos meus,
me deixando grávida da poesia
e prenhe de vida o desejo meu.


E eu ouço esse homem que eu
ainda, logo e então,
amo, sem quando ou porquê,
mas sei e sinto o como.
Como nunca, digo pra ele.
Como sempre, sussurro pra mim.


A poesia da vida é assim:
onde o amor em passeata chegou
de estandarte empunhado na mão,
no meio do povo, com os pés no chão.


Poema inspirado no livro de poesias "O Povo escreve a História nas paredes", de Mário Lago, no ano do seu centenário.

domingo, 4 de setembro de 2011

Pérolas na rede


















Ando relendo, e também lendo pela primeira vez, Walter Benjamin pelos olhos de Hannah Arendt. No ensaio "Homens em tempos sombrios" Arendt nos fala desse Benjamim que não podemos encontrar em biografias ou relatos históricos, mas somente e unicamente, através dos olhos daqueles com quem conviveu e deixou entrever, nas entrelinhas das falas, nas entrefalas dos gestos, nos entregestos do silêncio, o seu "quem". Esse alguém que somos nós, mais e além do que os olhos podem ver, mas que como um Daimon, que aparece à nossa revelia enquanto falamos, somos e nos movemos entre nossos pares, por detrás de nós, denunciando nosso melhor, nosso pior ou aquilo que em nós é indizível. Tomando contato com esse Benjamin e seus textos sobre a criança colecionadora e as lembranças, me deparei com a forma absolutamente bela com que Arendt descreve o filósofo, como um pescador de pérolas.

Pérolas seriam as cristalizações da memória, lembranças guardadas em algum lugar dentro de nós e que o tempo, às vezes, nos trás com suas marés. Como presentes, verdadeiros tesouros que sempre estiveram lá, mas ocultos e bem guardados para nós. Pérolas, esses fragmentos do tempo, absolutamente cristalizados, que dormiram durante longas eras, mas que com a ação de convulsas tempestades, revolvidos por ondas, tornam a voltar à tona e, lançados em mansas vagas, se espraiam no nosso presente, como um autêntico presente do tempo.

Logo após esse contato comovido com "o quem" da pessoa amiga que foi Arendt e o pescador paciente que foi Benjamin, me encontro chegando ao consultório de minha analista. Me sento com os mesmos gestos que uso há mais de três anos e, pela primeira vez, inauguro com meu olhar essa caixa, uma caixa que pelo que parece sempre estiverá lá, porém escondida pelos véus do presente para mim e, subitamente, desveladas pelo brilho da lembrança. Uma caixa idêntica, em presença, em aparência e significado, a caixa que encontrára há poucos meses na esquecida casa de campo da família, há anos não visitada, herança última de meu pai. Redescubro essa caixinha_na verdade, minha filha_ ali num canto da minha juventude, brilhando por entre uma fresta de armário, atraindo suas delicadas mãozinhas para me entregarem essa pérola. Na caixa haviam coleções de momentos, palavras escriras com a caligrafia da descoberta, que eu e minhas amigas depositávamos com absoluta fé na sagrada fortaleza de uma caixa. Essa crença na sua vocação de perenidade, na força de atravessar o tempo e vencer o seu perecimento, como uma pequena concha enfrenta os vastos e profundos oceanos sombrios. Sim, somos seres que perecem, lançados em nossa temporalidade, seres para a morte, vivendo em tempos igualmente sombrios, mas que através de uma singela e frágil caixinha, resgatada de uma juventude já apagada e rasurada, devastada mesmo pelas tsunamis desse nosso tempo, podem receber um lindo presente da vida. Sim, sim, pois talvez somente através dessas mãos que gerei, herdeira do que em mim é mais vivo, somente através dela, e até por causa dela, recebo de presente a lembrança de que a amizade sempre fora a mais cara virtude. O fraterno sentimento de irmandade por essas mulheres e por essas meninas é o sentimento mais-que-querido, mais ancestral em mim. Sim, sim, agora me lembro da doçura com que admirava e me enternecia com as Irmãs nos colégios de freiras. Recordo, entre ternas lágrimas e límpidos sorrisos, da vocação anunciada ainda pequena criancinha, quando revelei que queria ser freira, mesmo sabendo que não me irmanaria para a leitura das sagradas escrituras.

Então ofereço esse singelo presente, nesse meu tempo em meio a tantas pescarias, algo que me chegou às mãos nessas redes do além-digital, do passado da menina de oito anos que fui, esta pequenina pérola para mim. Penso que não saberia dizer melhor do que a criança de 8 anos que fui, desse sentimento de profunda irmandade e fraternidade pelas amigas que passaram e que ainda estão passando e, a rigor, um sentimento de amizade por toda a humanidade, que me preenche e me implulsiona, no caminho da escrita e do pensamento, pelas estradas das Letras e da Filosofia, mas sobretudo com o norte desse sentimento_a amizade.

É isso, que a amizade seja sempre este presente, um presente, o tempo presente, mesmo que na forma de uma lembrança, um tesouro, uma esperança na humanidade e na eternidade do que em nós deve ser póstumo, o que não tem preço, pois nas palavras de Arendt, como a fama póstuma, não dialoga com o que é mercadoria.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

do amor impossível entre uma gaivota e o sol



O pássaro branco está sempre só.
Nele não resplandecem
as cores do bando,
o azul da celeste arquitetura,
o negrume terrestre,
nem a verdejante mobília vegetal.

O pássaro branco é estranho e estrangeiro
a tudo o que há na terra de mais familiar.
Sem lugar ao sol no colorido ninho,
habita as alturas do que é sub-lunar.
Alvo, claro, irisado e febril,
risca os céus como um cometa a rodopiar.

É alma alada.
Quer seguir seu destino
de voar e habitar
em círculos de luz
e, num ímpeto, se entregar
aos píncaros azuis.

O pássaro branco e seu destino.
sem pincéis de colorir,
sem ninhos a construir,
sem liras pra entoar,
mas apenas desenhar
em seu traçado um voar.

Sua filosófica e invisível escrita de luz,
em sua existência que brilha e reluz,
renúncia pela qual se conduz.
Quem aplaudirá seu bailado
além daquele que, em verdade,
o amar?

Somente aquele que se fez sol
e mergulha tão belo
todos os dias no mar.

Poema inspirado em F. Nietzsche. 'É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante".

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

RASTROS DE UMA PRIMAVERA NO LEME



uma milonga, um lamento
que acorda as sombras da noite
que ainda se amam ao relento.
ah! tempo lento...
mantém acordada a lembrança
no vento pairando em suspenso

e os acordes de um bandoneon
a brincar de bailar e rodar
dentro do coração,
a tocar na emoção
que nem o esquecimento
pôs fim ao delicioso tormento

e então nesse tango eu invento
esse impossível momento
de verdade e maravilhamento
em que eles eles se amaram e dançaram
assim, como sempre fora,
denso, tenso e intenso

ah! o amor é como um raio
assim ouvi naquele tempo
tão verdade como é a milonga do tempo
e as sombras na noite se amando ao relento


Tema inspirado em "Milonga del Angel", de Astor Piazzolla.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Cyclone


Oswald, Oswald meu...
Cyclone tua sou eu.
Mais-que-perfeito cozinheiro de almas,
do alto de tuas potestades
revolves a nós, carne e espírito,
tudo uma só matéria humana,
de tuas gastronômicas alquimias.

E com tuas mãos de deus-artesão
a fazer girar e arder,
em fogo sagrado tuas iguarias.

Nessas nuvens virtuais,
garçonnière digitais,
minh'alma em redemoinhos,
esculpes em mim tua Cyclone,
mãe de ventanias.

Vem, cozinheiro meu,
que em temperos teus,
nos devoraremos,
e nos amaremos,
antropofagica-mente,
em nossas filosóficas artes,
de culinária espiritual,
eros-fagia.

Physis, na clareira que espreita,
nossa hybris eleita e que se deleita,
de incêndios e enchentes,
tempestuosas ventanias.

Apocalypse poético,
o cardápio perfeito
para o banquete da vida.
Luxuriante epifania.

Inspirado no video-documentário "O perfeito cozinheiro das almas", de Oswald de Andrade, veiculado pelo Instituto Moreira Salles no YouTube.

DEVIR-PASSARINHO



O que é hoje,
ainda em mim,
transborda
em amanhãs.

Amor que me excede
e me sucede,
e que agora me pede,
passagem...

Seguir pro além-mim
anunciada viagem,
eloquente miragem
da infinita paisagem.

O ser,
que ora é aí,
ainda
e mais além,
aonde
a vista não alcança,
avista e não se cansa.
Pequena
e grande criança.

E com que boca dizer
este nome não dito
do sentimento mais que bonito
Infinito,
inaudito?

E em que Terra achar
o espaço
pro caminho mais que preciso,
Do que já veio,
mas ainda vem vindo?

O que está
entre o já nascido
e que ainda
vem se parindo.

O que ontem foi grande
no seu nascer,
hoje se faz pequeno
em ensaiar crescer.

Espero e erro
a nascente palavra
que libertará o canto
de pássaro...
que não passará,
pois eu passarei
pela barulhenta passarinhada
e amanhã será,
apenas,
e também,
menino-passarinho